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Política social distributiva é o alvo do golpe

Éder Martins diz que objetivo do impeachment é blindar o Brasil de qualquer política de esquerda e conclama os trabalhadores a reagirem

Escrito por: Confetam • Publicado em: 06/05/2016 - 11:33 • Última modificação: 11/05/2016 - 16:36 Escrito por: Confetam Publicado em: 06/05/2016 - 11:33 Última modificação: 11/05/2016 - 16:36

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"Dilma está sendo cassada porque está combatendo a corrupção". A opinião é do professor Éder Martins, mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador da resistência democrática ao governo militar de 1964. Um dos palestrantes da mesa de análise de conjuntura do II Congresso Extraordinário da Confetam, realizada no dia 28 de abril, em Florianópólis, ele abordou o tema "Crise econômica e política no Brasil: uma disputa de hegemonia de classes".

Para o professor, a narrativa do impeachment - apresentado à sociedade como uma forma de "combater a corrupção" destituindo uma presidente que, contraditoriamente, apoiou investigações de escândalos e não cometeu crime - esconde os reais interesses dos setores golpistas: realinhar o Brasil com os EUA, destruir a classe trabalhadora e blindar o Estado brasileiro de qualquer política social distributiva de esquerda.

Ele explica que, ao contrário da Europa, onde a classe média é maior que o conjunto dos pobres e a igualdade política é entendida como igualdade econômica, no Brasil a ideia de igualdade política se encerra no voto, ainda que os eleitores tenham entre si uma brutal desigualdade. 

"O problema não é a corrupção, que existe em todos os Estados do mundo. O problema é a desigualdade econômica porque a distribuição desigual da riqueza gera um problema na democracia: temos direito de votar, mas não de ter igualdade econômica. Isso tem relação com a formatação da democracia brasileira em sua formulação", analisa.

Getúlio, Jango e Lula: golpeados pelo mesmo motivo

Diante destas distorções, o professor afirma ser natural que os brasileiros tenham começado a votar em projetos políticos que se dispuseram a combater as desigualdades e defender a inserção das grandes massas, como o governo da presidente Dilma.

"Todos os projetos distributivistas, como os dos ex-presidentes Getúlio Vargas, João Goulart e Lula, também foram golpeados da mesma forma, com o mesmo tipo de argumeto usado historicamente", comparou.

Após o golpe de 1964 e a deposição de Jango, explica, as massas foram despolitizadas pela ditadura miliar. Mas a eleição de Lula (2002) iniciou um o processo de ascensão e distribuição de renda, com o aumento do salário mínimo, políticas públicas compensatórias, um sistema de ensino que permitiu a ascensão social, e a retirada de 40 milhões de brasileiros da miséria.

Éder exemplifica que um cidadão que nasce na classe média nos EUA vai morrer na classe média porque o país não oferece o ensino superior gratuito. No Brasil, compara, há 20 anos acabamos com a classe média alta, formada em sua maioria por homens brancos universitários trabalhando em escritórios, enquanto homens negros da mesma idade engraxavam sapatos porque "não estudaram como nós".

Pobres deixaram a subserviência

O problema, segundo o professor, é que agora esses homens negros não são mais engraxates. Eles estão sentados do nosso lado, "cometendo a violência" de serem mais inteligentes do que nós. "O charme do capitalismo brasileiro é o mito da ascenção social", ironiza, acrescentado que isso é uma tragédia para a classe média, porque os pobres deixaram de ser subservientes.

"Não lembro de nenhum fato de tamanha importância. Quando eu tinha 15 anos, isso era utopia. Quando o Lula prometeu três refeições por dia, pensei 'tá louco'. Nós realizamos a nossa utopia".

Distribuição de renda equivocada

Contudo, o professor acredita que houve equívoco no novo modelo de distribuição de renda, implantado de forma despolitizada, a partir da aquisição de bens privados e não da garantia de acesso a direitos.

"A Suíça, nos anos 60, distribuiu pelos aparelhos públicos, como saúde, educação, transporte. No Brasil, os aparelhos públicos, apesar  de melhores,  estão sucateados. Isso impediu que os trabalhadores se mobilizassem. Não temos um apoio popular de massa articulado".

Mas os fatores decisivos para a instalação da crise política e econômica do Brasil, destacou Éder, foram as consequências da nova crise do sistema capitalista, a partir de 2008, "que engolfou o país e fez ruir o frágil modelo de presidencialismo de coalizão".

Sem regulamentação da mídia não haverá democracia

Segundo o professor, para assegurar a democracia, a classe trabalhadora precisa construir uma nova plataforma pelas esquerdas, um novo ciclo de qualificação e distribuição dos aparelhos públicos, e, principalmente, regulamentar a mídia. "A democracia é incompatível com o nível de cartelização da imprensa brasileira. Se não regulamentar, a democracia não vai sobreviver".

No meio das adversidades, o professor Éder também enxerga ganhos. "Finalmente nós reunificamos as esquerdas e isso é terrível para o inimigo. Eles conseguiram nos unificar, tomamos as ruas de volta com fortes chances de deter o golpe. A hora de ser corajoso é agora. Quem não for, poderá não ter a chance de ser depois", concluiu.

Confira a fala dos demais palestrantes nas próximas publicações sobre o II Congresso Extraordinário da Confetam.

Título: Política social distributiva é o alvo do golpe, Conteúdo: Dilma está sendo cassada porque está combatendo a corrupção. A opinião é do professor Éder Martins, mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador da resistência democrática ao governo militar de 1964. Um dos palestrantes da mesa de análise de conjuntura do II Congresso Extraordinário da Confetam, realizada no dia 28 de abril, em Florianópólis, ele abordou o tema Crise econômica e política no Brasil: uma disputa de hegemonia de classes. Para o professor, a narrativa do impeachment - apresentado à sociedade como uma forma de combater a corrupção destituindo uma presidente que, contraditoriamente, apoiou investigações de escândalos e não cometeu crime - esconde os reais interesses dos setores golpistas: realinhar o Brasil com os EUA, destruir a classe trabalhadora e blindar o Estado brasileiro de qualquer política social distributiva de esquerda. Ele explica que, ao contrário da Europa, onde a classe média é maior que o conjunto dos pobres e a igualdade política é entendida como igualdade econômica, no Brasil a ideia de igualdade política se encerra no voto, ainda que os eleitores tenham entre si uma brutal desigualdade.  O problema não é a corrupção, que existe em todos os Estados do mundo. O problema é a desigualdade econômica porque a distribuição desigual da riqueza gera um problema na democracia: temos direito de votar, mas não de ter igualdade econômica. Isso tem relação com a formatação da democracia brasileira em sua formulação, analisa. Getúlio, Jango e Lula: golpeados pelo mesmo motivo Diante destas distorções, o professor afirma ser natural que os brasileiros tenham começado a votar em projetos políticos que se dispuseram a combater as desigualdades e defender a inserção das grandes massas, como o governo da presidente Dilma. Todos os projetos distributivistas, como os dos ex-presidentes Getúlio Vargas, João Goulart e Lula, também foram golpeados da mesma forma, com o mesmo tipo de argumeto usado historicamente, comparou. Após o golpe de 1964 e a deposição de Jango, explica, as massas foram despolitizadas pela ditadura miliar. Mas a eleição de Lula (2002) iniciou um o processo de ascensão e distribuição de renda, com o aumento do salário mínimo, políticas públicas compensatórias, um sistema de ensino que permitiu a ascensão social, e a retirada de 40 milhões de brasileiros da miséria. Éder exemplifica que um cidadão que nasce na classe média nos EUA vai morrer na classe média porque o país não oferece o ensino superior gratuito. No Brasil, compara, há 20 anos acabamos com a classe média alta, formada em sua maioria por homens brancos universitários trabalhando em escritórios, enquanto homens negros da mesma idade engraxavam sapatos porque não estudaram como nós. Pobres deixaram a subserviência O problema, segundo o professor, é que agora esses homens negros não são mais engraxates. Eles estão sentados do nosso lado, cometendo a violência de serem mais inteligentes do que nós. O charme do capitalismo brasileiro é o mito da ascenção social, ironiza, acrescentado que isso é uma tragédia para a classe média, porque os pobres deixaram de ser subservientes. Não lembro de nenhum fato de tamanha importância. Quando eu tinha 15 anos, isso era utopia. Quando o Lula prometeu três refeições por dia, pensei tá louco. Nós realizamos a nossa utopia. Distribuição de renda equivocada Contudo, o professor acredita que houve equívoco no novo modelo de distribuição de renda, implantado de forma despolitizada, a partir da aquisição de bens privados e não da garantia de acesso a direitos. A Suíça, nos anos 60, distribuiu pelos aparelhos públicos, como saúde, educação, transporte. No Brasil, os aparelhos públicos, apesar  de melhores,  estão sucateados. Isso impediu que os trabalhadores se mobilizassem. Não temos um apoio popular de massa articulado. Mas os fatores decisivos para a instalação da crise política e econômica do Brasil, destacou Éder, foram as consequências da nova crise do sistema capitalista, a partir de 2008, que engolfou o país e fez ruir o frágil modelo de presidencialismo de coalizão. Sem regulamentação da mídia não haverá democracia Segundo o professor, para assegurar a democracia, a classe trabalhadora precisa construir uma nova plataforma pelas esquerdas, um novo ciclo de qualificação e distribuição dos aparelhos públicos, e, principalmente, regulamentar a mídia. A democracia é incompatível com o nível de cartelização da imprensa brasileira. Se não regulamentar, a democracia não vai sobreviver. No meio das adversidades, o professor Éder também enxerga ganhos. Finalmente nós reunificamos as esquerdas e isso é terrível para o inimigo. Eles conseguiram nos unificar, tomamos as ruas de volta com fortes chances de deter o golpe. A hora de ser corajoso é agora. Quem não for, poderá não ter a chance de ser depois, concluiu. Confira a fala dos demais palestrantes nas próximas publicações sobre o II Congresso Extraordinário da Confetam.



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