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O Bolsa Família e a Revolução das Mulheres no Sertão

A antropóloga Walquiria Domingues Leão Rêgo testemunhou, nos últimos cinco anos, a uma mudança de comportamento nas áreas mais pobres e, talvez, machistas do Brasil.

Escrito por: • Publicado em: 20/03/2014 - 00:00 Escrito por: Publicado em: 20/03/2014 - 00:00

O dinheiro do Bolsa Família trouxe poder de escolha às mulheres. Elas agora decidem desde a lista do supermercado até o pedido de divórcio.
Uma revolução está em curso. Silencioso e lento - 52 anos depois da criação da pílula anticoncepcional - o feminismo começa a tomar forma nos rincões mais pobres e, possivelmente, mais machistas do Brasil.
O interior do Piauí, o litoral de Alagoas, o Vale do Jequitinhonha, em Minas, o interior do Maranhão e a periferia de São Luís são o cenário desse movimento. Quem o descreve é a antropóloga Walquiria Domingues Leão Rêgo, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Nos últimos cinco anos, Walquiria acompanhou, ano a ano, as mudanças na vida de mais de cem mulheres, todas beneficiárias do Bolsa Família. Foi às áreas mais isoladas, contando apenas com os próprios recursos, para fazer um exercício raro: ouvir da boca dessas mulheres como a vida delas havia (ou não) mudado depois da criação do programa. Adiantamos parte das conclusões de Walquiria. A pesquisa completa será contada em um livro, a ser lançado ainda este ano.
MULHERES SEM DIREITOS
As áreas visitadas por Walquiria são aquelas onde, às vezes, as famílias não conseguem obter renda alguma ao longo de um mês inteiro. Acabam por viver de trocas. O mercado de trabalho é exíguo para os homens. O que esperar, então, de vagas para mulheres. Há pouco acesso à educação e saúde. Filhos costumam ser muitos. A estrutura é patriarcal e religiosa.
A mulher está sempre sob o jugo do pai, do marido. “Muitas dessas mulheres passaram pela experiência humilhante de ser obrigada a, literalmente, ‘caçar a comida’”, afirma Walquiria. “É gente que vive aos beliscões, sem direito a ter direitos”. Walquiria queria saber se, para essas pessoas, o Bolsa Família havia se transformado numa bengala assistencialista ou resgatara algum senso de cidadania.
BATOM E DANONE
“Há mais liberdade no dinheiro”, resume Edineide, uma das entrevistadas de Walquiria, residente em Pasmadinho, no Vale do Jequitinhonha. As mulheres são mais de 90% das titulares do Bolsa Família: são elas que, mês a mês, sacam o dinheiro na boca do caixa. Edineide traduz o significado dessa opção do governo por dar o cartão do benefício para a mulher: “Quando o marido vai comprar, ele compra o que ele quer. E se eu for, eu compro o que eu quero.” Elas passaram a comprar Danone para as crianças. E, a ter direito à vaidade. Walquiria testemunhou mulheres comprarem batons para si mesmas pela primeira vez na vida. Finalmente, tiveram o poder de escolha. E isso muda muitas coisas.
O DINHEIRO LEVA AO DIVÓRCIO E À DIMINUIÇÃO DO NÚMERO DE FILHOS?
“Boa parte delas têm uma renda fixa pela primeira vez. E várias passaram a ter mais dinheiro do que os maridos”, diz Walquiria. Mais do que escolher entre comprar macarrão ou arroz, o Bolsa-Família permitiu a elas decitambém se querem ou não continuar com o marido. Nessas regiões, ainda é raro que a mulher tome a iniciativa da separação. Mas isso começa a acontecer, como relata Walquiria:
“Na primeira entrevista feita, em abril de 2006, com Quitéria Ferreira da Silva, de 34 anos, casada e mãe de três filhos pequenos,em Inhapi, perguntei-lhe sobre as questões dos maus tratos. Ela chorou e me disse que não queria falar sobre isso. No ano seguinte, quando retornei, encontrei-a separada do marido, ostentando uma aparência muito mais tranqüila.”
A despeito do assédio dos maridos, nenhuma das mulheres ouvidas por Walquiria admitiu ceder aos apelos deles e dar na mão dos homens o dinheiro do Bolsa. “Este dinheiro é meu, o Lula deu pra mim (sic) cuidar dos meus filhos e netos. Pra que eu vou dar pra marido agora? Dou não!”, disse Maria das Mercês Pinheiro Dias, de 60 anos, mãe de seis filhos, moradora de São Luís, em entrevista em 2009.
Walquiria relata ainda que aumentou o número de mulheres que procuram por métodos anticoncepcionais. Elas passaram a se sentir mais à vontade para tomar decisões sobre o próprio corpo, sobre a sua vida. É claro que as mudanças ainda são tênues.
Ninguém que visite essas áreas vai encontrar mulheres queimando sutiãs e citando Betty Friedan. Mas elas estão começando a romper com uma dinâmica perversa, descrita pela primeira vez em 1911, pelo filósofo inglês John Stuart Mill. De acordo com Mill, as mulheres são treinadas desde crianças não apenas para servir aos homens, maridos e pais, mas para desejar servi-los. Aparentemente, as mulheres mais pobres do Brasil estão descobrindo que podem desejar mais do que isso.
AS MULHERES QUEREM MAIS
E vem ainda do Sertão, agora do Ceará, uma das mais ousadas experiências da última década. As protagonistas são as mulheres trabalhadoras. Desde 2006, vem sendo construída uma Política Pública de valorização das mulheres no que  tange à equidade de gênero e remuneração.
Esse debate foi iniciado e exposto à Prefeitura de Quixadá (CE) bem como a toda a Sociedade Brasileira pelo SINDSEP de Quixadá e Região. De acordo com Maria das Graças Costa (Secretária da Mulher Trabalhadora do SINDSEP) e responsável pela campanha de equidade de remuneração da ISP no Brasil "as mulheres já conquistaram muito no resgate de sua cidadania. Mas ainda queremos mais. No Mundo do Trabalho, quer seja no mercado privado quer seja no Serviço Público ainda precisamos conquistar a igualdade. E para atingir esse nível temos feito um caminho pela debate da equidade de gênero e remuneração."
O registro de toda essa experiência em processo foi realizado através de uma pesquisa empreendida pela própria Maria das Graças Costa (UFMG) que investigou como o SINDSEP de Quixadá e Região (Ceará) busca efetivar em seu cotidiano sindical ações de democracia participativa.

Na pesquisa, a Sindicalista-pesquisadora analisa-se a experiência do programa de equidade de gênero e remuneração como um processo de participação social em curso. A problemática se justifica ainda pela existência da experiência da promoção da Equidade de Gênero e Remuneração no Serviço Público Municipal de Quixadá, que está buscando consolidar a participação democrática de todos e, principalmente de todas, nos diversos segmentos da Sociedade Contemporânea, sendo exemplo de efetivação das trabalhadoras nos organismos democráticos. 
Para conhecer a pesquisa na íntegra, a Secretaria Geral da Presidência da República publicou o trabalho, o qual você poderá ler através do link: Clique aqui.
Fonte: Sindsep Quixadá
Título: O Bolsa Família e a Revolução das Mulheres no Sertão, Conteúdo: O dinheiro do Bolsa Família trouxe poder de escolha às mulheres. Elas agora decidem desde a lista do supermercado até o pedido de divórcio. Uma revolução está em curso. Silencioso e lento - 52 anos depois da criação da pílula anticoncepcional - o feminismo começa a tomar forma nos rincões mais pobres e, possivelmente, mais machistas do Brasil. O interior do Piauí, o litoral de Alagoas, o Vale do Jequitinhonha, em Minas, o interior do Maranhão e a periferia de São Luís são o cenário desse movimento. Quem o descreve é a antropóloga Walquiria Domingues Leão Rêgo, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Nos últimos cinco anos, Walquiria acompanhou, ano a ano, as mudanças na vida de mais de cem mulheres, todas beneficiárias do Bolsa Família. Foi às áreas mais isoladas, contando apenas com os próprios recursos, para fazer um exercício raro: ouvir da boca dessas mulheres como a vida delas havia (ou não) mudado depois da criação do programa. Adiantamos parte das conclusões de Walquiria. A pesquisa completa será contada em um livro, a ser lançado ainda este ano. MULHERES SEM DIREITOS As áreas visitadas por Walquiria são aquelas onde, às vezes, as famílias não conseguem obter renda alguma ao longo de um mês inteiro. Acabam por viver de trocas. O mercado de trabalho é exíguo para os homens. O que esperar, então, de vagas para mulheres. Há pouco acesso à educação e saúde. Filhos costumam ser muitos. A estrutura é patriarcal e religiosa. A mulher está sempre sob o jugo do pai, do marido. “Muitas dessas mulheres passaram pela experiência humilhante de ser obrigada a, literalmente, ‘caçar a comida’”, afirma Walquiria. “É gente que vive aos beliscões, sem direito a ter direitos”. Walquiria queria saber se, para essas pessoas, o Bolsa Família havia se transformado numa bengala assistencialista ou resgatara algum senso de cidadania. BATOM E DANONE “Há mais liberdade no dinheiro”, resume Edineide, uma das entrevistadas de Walquiria, residente em Pasmadinho, no Vale do Jequitinhonha. As mulheres são mais de 90% das titulares do Bolsa Família: são elas que, mês a mês, sacam o dinheiro na boca do caixa. Edineide traduz o significado dessa opção do governo por dar o cartão do benefício para a mulher: “Quando o marido vai comprar, ele compra o que ele quer. E se eu for, eu compro o que eu quero.” Elas passaram a comprar Danone para as crianças. E, a ter direito à vaidade. Walquiria testemunhou mulheres comprarem batons para si mesmas pela primeira vez na vida. Finalmente, tiveram o poder de escolha. E isso muda muitas coisas. O DINHEIRO LEVA AO DIVÓRCIO E À DIMINUIÇÃO DO NÚMERO DE FILHOS? “Boa parte delas têm uma renda fixa pela primeira vez. E várias passaram a ter mais dinheiro do que os maridos”, diz Walquiria. Mais do que escolher entre comprar macarrão ou arroz, o Bolsa-Família permitiu a elas decitambém se querem ou não continuar com o marido. Nessas regiões, ainda é raro que a mulher tome a iniciativa da separação. Mas isso começa a acontecer, como relata Walquiria: “Na primeira entrevista feita, em abril de 2006, com Quitéria Ferreira da Silva, de 34 anos, casada e mãe de três filhos pequenos,em Inhapi, perguntei-lhe sobre as questões dos maus tratos. Ela chorou e me disse que não queria falar sobre isso. No ano seguinte, quando retornei, encontrei-a separada do marido, ostentando uma aparência muito mais tranqüila.” A despeito do assédio dos maridos, nenhuma das mulheres ouvidas por Walquiria admitiu ceder aos apelos deles e dar na mão dos homens o dinheiro do Bolsa. “Este dinheiro é meu, o Lula deu pra mim (sic) cuidar dos meus filhos e netos. Pra que eu vou dar pra marido agora? Dou não!”, disse Maria das Mercês Pinheiro Dias, de 60 anos, mãe de seis filhos, moradora de São Luís, em entrevista em 2009. Walquiria relata ainda que aumentou o número de mulheres que procuram por métodos anticoncepcionais. Elas passaram a se sentir mais à vontade para tomar decisões sobre o próprio corpo, sobre a sua vida. É claro que as mudanças ainda são tênues. Ninguém que visite essas áreas vai encontrar mulheres queimando sutiãs e citando Betty Friedan. Mas elas estão começando a romper com uma dinâmica perversa, descrita pela primeira vez em 1911, pelo filósofo inglês John Stuart Mill. De acordo com Mill, as mulheres são treinadas desde crianças não apenas para servir aos homens, maridos e pais, mas para desejar servi-los. Aparentemente, as mulheres mais pobres do Brasil estão descobrindo que podem desejar mais do que isso. AS MULHERES QUEREM MAIS E vem ainda do Sertão, agora do Ceará, uma das mais ousadas experiências da última década. As protagonistas são as mulheres trabalhadoras. Desde 2006, vem sendo construída uma Política Pública de valorização das mulheres no que  tange à equidade de gênero e remuneração. Esse debate foi iniciado e exposto à Prefeitura de Quixadá (CE) bem como a toda a Sociedade Brasileira pelo SINDSEP de Quixadá e Região. De acordo com Maria das Graças Costa (Secretária da Mulher Trabalhadora do SINDSEP) e responsável pela campanha de equidade de remuneração da ISP no Brasil as mulheres já conquistaram muito no resgate de sua cidadania. Mas ainda queremos mais. No Mundo do Trabalho, quer seja no mercado privado quer seja no Serviço Público ainda precisamos conquistar a igualdade. E para atingir esse nível temos feito um caminho pela debate da equidade de gênero e remuneração. O registro de toda essa experiência em processo foi realizado através de uma pesquisa empreendida pela própria Maria das Graças Costa (UFMG) que investigou como o SINDSEP de Quixadá e Região (Ceará) busca efetivar em seu cotidiano sindical ações de democracia participativa. Na pesquisa, a Sindicalista-pesquisadora analisa-se a experiência do programa de equidade de gênero e remuneração como um processo de participação social em curso. A problemática se justifica ainda pela existência da experiência da promoção da Equidade de Gênero e Remuneração no Serviço Público Municipal de Quixadá, que está buscando consolidar a participação democrática de todos e, principalmente de todas, nos diversos segmentos da Sociedade Contemporânea, sendo exemplo de efetivação das trabalhadoras nos organismos democráticos.  Para conhecer a pesquisa na íntegra, a Secretaria Geral da Presidência da República publicou o trabalho, o qual você poderá ler através do link: Clique aqui. Fonte: Sindsep Quixadá



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