Para além da resistência, movimento sindical precisa articular uma outra utopia

17/02/2019 - 12:32

Coordenador do Centro de Estudos do Trabalho e professor de Economia Política, Epitácio Macário afirma que a utopia do Lulismo se esgotou.

Perder as ilusões, retomar o fortalecimento das organizações do povo trabalhador e articular uma outra utopia. Estes são os três principais desafios impostos à classe trabalhadora pela conjuntura de ultraliberalismo econômico, ultraconservadorismo e autoritarismo que se desenha no cenário atual. A opinião é do professor de Economia Política da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Epitácio Macário, coordenador do Centro de Estudos do Trabalho (Cetros/UECE).

Palestrante do Curso de Formação Política Trabalho e Sindicalismo: Perspectivas para o Movimento Sindical, promovido em Fortaleza (CE) pelo Dieese/Cetros, o professor Macário aponta o primeiro passo para enfrentar a atual conjuntura no Brasil: reconhecer que a experiência recente do Lulismo esgotou-se.

“As estratégias adotadas por Lula, por Dilma, pelo PT, por uma parte do movimento social no governo, se esgotaram. Nós temos que perceber outra coisa: a estratégia do eleitoralismo, de eleger pessoas, se mostrou falha. Então, perder as ilusões é o primeiro elemento que a gente tem que ter, e olhar a realidade com os olhos bem abertos”, alerta Epitácio Macário.

Educação das bases

De acordo com o professor, o segundo desafio deriva do primeiro: retomar o processo de fortalecimento das organizações do povo trabalhador, dos sindicatos, dos movimentos sociais, do movimento estudantil, do movimento de mulheres e da juventude por meio de um amplo trabalho de educação das bases. “Um trabalho que a gente eduque as pessoas, que consiga mobilizar as pessoas para defenderem os seus direitos e enfrentar a retirada desses direitos”, sugere.

Ele considera esse trabalho imprescindível ao processo de resistência à reforma da Previdência Social, à privatização da Petrobrás, Embraer, Eletrobrás, Embrapa, à entrega do território nacional a mineradoras estrangeiras, à destruição da vida dos povos tradicionais do Brasil e a todos os ataques à Nação acenados pelo governo de ultradireita do presidente Jair Bolsonaro.

Transformação estrutural

“Primeiro, temos de nos organizar para oferecer uma resistência ao que está se esboçando. Junto com isso, a gente precisa articular uma outra utopia, diferente daquela do Lulismo. Uma outra utopia que, necessariamente, aponta para um processo de transformação estrutural da sociedade. E isso tem que ser fruto de um amplo processo de educação das nossas bases sindicais, dos movimentos sociais”, propõe.

Macário explica que o Brasil vive uma nova conjuntura, qualitativamente diferente da anterior. Ela se inicia em 2014, se expressa na forma de crise fiscal e se consolida com o impeachment sem crime da ex-presidenta Dilma, a prisão sem provas de Lula e o impedimento ilegal do ex-presidente, líder das pesquisas de intenção de voto, concorrer às eleições presidenciais de 2018.

Ultraliberalismo econômico

“Esses fatos precipitaram a realidade brasileira para dentro de uma conjuntura que persegue um projeto baseado em três pilastras: ultraliberalismo econômico, ultraconservadorismo e autoritarismo”, explica o professor de Economia Política. Na prática, o ultraliberalismo significa fundamentalmente o rebaixamento ainda maior das condições de vida, dos salários diretos e indiretos do povo trabalhador.

“Significa um realinhamento com os EUA e seu projeto de domínio aqui na América Latina. Significa também a liquidação do patrimônio estatal que ainda existe, a realização da reforma da previdência do governo Bolsonaro e o aprofundamento da reforma fiscal materializada na Emenda Constitucional 95”, adverte.

Ultraconservadorismo

Um segundo pilar dessa nova conjuntura, explica o professor, se baseia num tecido social “gangrenado” por um ultraconservadorismo que cresceu muito nos últimos anos, está representado na Câmara, no Senado, nos Legislativos, no Judiciário, nos Executivos, e sustenta Bolsonaro. “É esse processo de recrudescimento do conservadorismo que dá uma base social de valores, de conduta para o projeto desse novo governo”, afirma.

Autoritarismo

A quantidade de cargos importantes do governo Bolsonaro ocupados por militares, desde Ministérios até Pastas estratégicas da República, sinaliza o terceiro e último pilar citado pelo professor Macário para caracterizar a atual conjuntura: a presença muito forte do autoritarismo. Segundo ele, os conflitos sociais nessa nova conjuntura não serão geridos como na gestão do ex-presidente Lula, que tentou administrar a pobreza, o conflito social e as minorias com um conjunto de políticas públicas.

Criminalização

“A equipe do Paulo Guedes, o grupo do governo, não tem dúvida que será necessário um processo de criminalização dos movimentos sociais. Portanto, vão lançar mão disso, sim! Não é à toa que se tem no governo como ministro o juiz Moro, que mandou prender Lula, e que já tem inciativas muito graves no sentido de chancelar a violência policial”, lembra o coordenador do Cetros/UECE.